Análise de Mercado

“Agro vai continuar crescendo”

A economista, veterinária e consultora Lygia Pimentel é otimista em relação ao momento atual do agronegócio brasileiro


Publicado em: 06/08/2020 às 09:30hs

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Foto: Lygia Pimentel, consultora. Foto: Daniella Lima/Grifatto

Lygia Pimentel: Economista, veterinária e consultora
Por: Estadão

CEO de uma consultoria especializada em inteligência de mercado, ela ressalta o dinamismo da agropecuária brasileira e diz que o setor vai continuar crescendo de forma orgânica e absorvendo novidades tecnológicas apesar dos impactos da pandemia. Além disso, mudanças de hábito nos mercados compradores e por parte dos produtores podem ajudar ainda mais nesse crescimento. Mas os produtores devem ficar de olho nas ferramentas disponíveis no mercado financeiro para se precaverem das oscilações políticas e comerciais que têm se intensificado nos últimos anos.

Estadão – É possível estimar os efeitos da pandemia nos negócios no campo?

Lygia Pimentel – Depende do produto analisado. No setor de carne bovina, nós observamos queda de 9% no consumo doméstico. Mas, por uma conjuntura de mercado, não vimos os preços caírem. Tínhamos baixa oferta e parte do excedente que seria formado foi levada pela China, o que ajudou. Nas outras proteínas, ocorreu um movimento semelhante, menos intenso. Carnes de frango e carne suína também sofreram. Essas carnes viram seus preços caírem. Houve uma explosão no consumo de ovos, foi uma coisa impressionante. Cada segmento tendo um tipo de mudança, um tipo de alteração.

Como o produtor pode se blindar de seus efeitos?

Depois que a situação já chegou e se acomodou, fica difícil procurar ações. O que você precisa é procurar antecipar os problemas. Uma das formas é a gestão do risco de preços porque os eventos – eu não vou dizer sanitários porque os sanitários são novidade, mas eventos políticos –, as guerras comerciais acabam interferindo nos preços. A guerra comercial China-EUA tem sido outro grande evento que tem mexido com os preços, principalmente agrícolas, interferido bastante na cotação do dólar, que também por sua vez interfere nas nossas exportações. Quando o dólar se valoriza, nossas exportações aumentam. Esses eventos têm interferido muito na movimentação de preços, tornando os preços mais voláteis. Isso é sempre um risco para o produtor. Por isso, temos defendido muito o uso de ferramentas financeiras com o mercado futuro, do mercado de opções, para que o produtor consiga se proteger de qualquer imprevisto que venha a atingir as margens da atividade. Isso é muito importante.

Essas ferramentas podem proteger até dos riscos de uma pandemia?

Proteção usando ferramentas financeiras, sim. Agora, para quem vai escoar essa produção numa situação muito extrema, é um problema. Isso não serve a todos os produtores. Por exemplo, aqui no Brasil a gente tem contratos de boi gordo na Bolsa que protegem a produção pecuária de corte. Mas você não tem contrato de carne de frango ou de frango vivo. O produtor de frango está muito mais sujeito a algum problema em relação à venda do produto final, mas ele consegue por exemplo se proteger contra a alta do milho, que é uma commodity negociada na Bolsa. Você nunca está cem por cento protegido, não é garantia de absolutamente nada, mas você consegue controlar alguns riscos. Você tem que tentar mapear isso.

Como você vê a imagem do setor hoje em termos ambientais? Acredita que a instabilidade nessa área possa trazer prejuízos para o agronegócio?

Se as coisas forem mal colocadas, sim. Se a gente colocar as coisas como são hoje, não. A gente fala muito de desmatamento, e coloca muito a culpa no agronegócio por conta disso, mas o agronegócio está estabilizado. O agronegócio está formalizado. A gente tem regras, tem um código florestal que é o mais exigente do mundo. Então tem algumas interpretações errôneas. Mas a gente tem um dado que nunca é citado, que é a recuperação natural das florestas que está acontecendo porque os produtores que são ineficientes normalmente são os produtores que estão envolvidos em alguma inconsistência legal em relação a sua área protegida. Esse cara está com os dias contados porque ele tem uma produtividade tão baixa que ele não consegue mais recuperar a ponto de se colocar em ordem de novo. Para uma área ser rentável, ela precisa ser produtiva e ela só é produtiva se ela for bem cuidada e se houver investimentos ali dentro. O agronegócio não depende do desmatamento para sobreviver, ele está estabilizado, é proibido, é criminoso você avançar sobre área de fronteira [agrícola]. A gente devia cuidar mais dessa imagem, defender nossa imagem e falar que a gente tem regras rigorosas. Você tem que defender lá fora sua imagem pra você não perder parceiros comerciais importantes.

Como as mudanças de regras e hábitos na China podem beneficiar a produção brasileira?

O principal consumo proteico na China, por hábito, é o de carne suína. Como eles perderam 50% da produção com a peste suína africana a partir de 2017, eles tiveram que aumentar o consumo das outras proteínas para buscar uma alimentação equilibrada. Então frango, ovos, carne bovina, tudo começou a subir. Isso incrementou, aumentou o ímpeto deles pelas importações. Ou seja, antes da pandemia já existia uma situação de quebra forte dos estoques de proteínas animais na China que levou ao aumento das importações. A pandemia vai causar uma desaceleração global, isso acaba interferindo no consumo de proteínas de alta qualidade, que são as proteínas animais, mas a gente já vinha de um contexto anterior que fortalece as exportações mesmo nesse período.

A pandemia pode ser usada para imposição de barreiras comerciais ao Brasil?

A China já começou a bloquear alguns frigoríficos onde houve contaminação. O ambiente de frigoríficos é altamente favorável para a transmissão de doenças. Por isso, ali é tudo controlado. O protocolo é muito rigoroso, mas é muito difícil você controlar um surto viral. Então, sim, isso pode ser usado para fins comerciais porque na prática não há comprovação científica da transmissão do vírus pelas mercadorias.

Que tipo de mudança de hábito será necessária ao produtor a partir de agora?

O produtor não mudou muito sua rotina. Ele está no campo, a densidade populacional lá é muito baixa. O agro não parou, não viu necessidade de mudança. Talvez mude algum hábito como por exemplo a diversificação de seus fornecedores. Nessa paralisação, o produtor que vendia pode ficar meio desamparado, então talvez ele diversifique. Mas estou falando da carne. Quando a gente fala de agricultura, quem está no campo está plantando e colhendo.

E o que vai acontecer com os novos serviços surgidos durante a pandemia?

A pandemia vai acelerar o digital, o home office, mas essas são coisas que não atingem muito o agro, a não ser a tecnologia. O agro vai se fortalecer, o agro ficou muito resiliente por estar em um bom momento e também por ser o básico para que a gente se mantenha vivo. Eu acho que isso vai fortalecer muito o agronegócio. Vai permitir um desenvolvimento orgânico do setor.

Bioinsumos ganham mais espaço no campo

A adoção de bioinsumos nas lavouras é uma das tendências mais fortes do agronegócio brasileiro nos últimos anos. Segundo a CropLife Brasil, associação que representa as empresas do setor, o mercado deve registrar um crescimento de vendas entre 20% e 30% em 2020 na comparação com a safra anterior. O avanço se explica em parte por tanto a produção quanto o mercado buscarem produtos mais corretos do ponto de vista ambiental.

Ainda que muitos biodefensivos sejam utilizados em conjunto com produtos convencionais, a tendência é de que as grandes culturas passem a adotar esses insumos. Hoje, culturas como a soja, a cana e o café são as que mais demandam os bioinsumos. Os lançamentos dos últimos dois anos equivalem a 40% de todos os biodefensivos do mercado brasileiro.

“Vamos crescer tanto nas vendas quanto na produção. Tivemos muitos produtos lançados neste ano e outros estão previstos”, diz Amália Borsari, diretora de biológicos da CropLife Brasil. Para quem os produtores, hoje, funcionam como multiplicadores dos produtos.

Apesar dos bons ventos, Amália ressalta que já existe a necessidade de uma discussão mais forte sobre a propriedade intelectual no setor. “Nós estamos mais maduros para debater a questão. A legislação de propriedade industrial no Brasil é bem moderna e alinhada com alguns dos principais players mundiais, mas quando falamos em ciências da vida temos uma interpretação bastante restritiva por parte da lei.”