Biológicos

Entenda o ciclo do carrapato-do-boi e os benefícios do uso de controle biológico contra a praga

Startup de biotecnologia desenvolveu tratamento contra o parasita baseado em controle biológico; Tecnologia é 100% natural e à base de fungos, inimigos naturais dos carrapatos


Publicado em: 18/09/2020 às 17:00hs

Entenda o ciclo do carrapato-do-boi e os benefícios do uso de controle biológico contra a praga

Originária da Ásia, a espécie Rhipicephalus microplus, conhecida popularmente como carrapato-do-boi, pode causar diversos problemas para pecuaristas do mundo todo. Só no Brasil, estes parasitas são responsáveis por perdas econômicas que ultrapassam R$ 10 bilhões anualmente, de acordo com dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Um prejuízo considerável, que decorre de adversidades que os produtores conhecem muito bem: estresse do animal, perda de peso, queda de produção, gastos com carrapaticidas e medicamentos, descarte de leite e até a morte dos gados.

“É muito comum ouvir entre os produtores experiências negativas em relação à presença e manejo de carrapatos nos animais. Os parasitas, apesar de pequenos, trazem grandes perdas nas produções. Além de se alimentarem diretamente do animal, são vetores para doenças que afetam a sanidade do rebanho. A dúvida de muitos produtores, portanto, é como realizar um controle eficiente para reduzir esses prejuízos”, explica Lucas von Zuben, CEO da Decoy, desenvolvedora de soluções biológicas para controle de pragas. 

De acordo com o executivo, para entender os métodos de combate, é preciso conhecer o ciclo de vida do carrapato e os fatores que interferem no seu desenvolvimento. “O ciclo de vida do carrapato-do-boi é dividido em duas etapas: a fase de vida livre e a fase parasitária. Um fato curioso e importante é que este parasita apresenta um único hospedeiro ao longo da vida, que geralmente é um bovino”, explica. 

Fase de vida livre

Essa fase se inicia quando a fêmea do carrapato fecundada e ingurgitada (repleta de sangue, necessário para maturação dos ovos) se desprende do animal (hospedeiro) e cai no pasto. Neste momento, ela entra na fase “pré-postura”, etapa anterior à liberação dos ovos, que dura cerca de 2 a 5 dias. “É neste período que ocorre a produção e maturação dos ovos. Posteriormente, a fêmea inicia a postura dos ovos, que dura em média um período de 17 dias. Uma fêmea pode colocar 3.000 mil ovos, o que explica o porquê de a grande maioria dos carrapatos estar no solo, e não no animal”, ressalta von Zuben. 

Desses ovos emergem os “micuins”, nome popular dado às larvas do carrapato. Também são conhecidas como larvas infestantes, e apresentam uma coloração avermelhada, bastante característica. “Para se desenvolverem, as larvas precisam de um hospedeiro e, por isso, se agrupam nas pontas das folhas da pastagem e esperam algum animal passar. Quando isso ocorre, se fixam no hospedeiro e estão prontas para iniciar a nova fase de vida. E é assim que os carrapatos infestam um rebanho”, explica.

A fase de vida livre dura cerca de 30 dias, mas, de acordo com as condições ambientais de temperatura e umidade, pode chegar a até 300 dias. Quanto maior a temperatura e umidade, mais rápido o ciclo ocorre, e, consequentemente, maior o número de carrapatos.

Fase parasitária

Depois que as larvas infestam o corpo do hospedeiro, começa a fase parasitária. “Inicialmente, as larvas procuram locais de fácil fixação, onde a pele do hospedeiro é mais fina, com maior vascularização e proteção contra autolimpeza. Por isso é comum encontrar os carrapatos em regiões como a barbela, úberes e entre as pernas do animal”, alerta von Zuben. Depois de 4 a 7 dias no corpo do hospedeiro, a larva parasitária se torna uma ninfa, que dará origem ao adulto. Nessa fase adulta, os carrapatos realizam a cópula e, após a fêmea ser fecundada, ela se alimenta do sangue do hospedeiro, ingurgita (aumenta o tamanho corporal, repleta do sangue do hospedeiro) e se desprende do animal, dando início a um novo ciclo de vida livre.

O período que vai desde a primeira infecção da larva no hospedeiro até a queda da fêmea dura em média 21 dias. Nesta fase, por estarem aderidos ao corpo do animal, que possui uma temperatura constante, os carrapatos são menos afetados por condições ambientais e, por isso, o ciclo não sofre com variações.

Na figura abaixo, é possível observar como ocorre o ciclo completo:

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Controle biológico

Foi pensando neste problema e na qualidade de vida dos pecuaristas e animais que a Decoy desenvolveu um tratamento contra o carrapato-do-boi baseado no controle biológico. A tecnologia é 100% natural, à base de fungos, inimigos naturais dos carrapatos. “Estes fungos já estão presentes na natureza. A nossa equipe isolou, pesquisou e transformou em uma solução altamente eficiente no controle da infestação do carrapato-do-boi. Ou seja, utilizamos os fungos como aliados do produtor, auxiliando no manejo, que é realizado de forma rápida e eficiente, no lugar e momento certo”, explica von Zuben. 

Como apenas 5% dos carrapatos estão no animal e 95% se encontram no pasto, a tecnologia da Decoy, pioneira na área de saúde animal em todo o mundo, também inclui o controle do local. Desse modo, com a utilização combinada de duas soluções, a startup propõe um tratamento eficaz, de forma estratégica e natural. “O produto não deixa resíduos no leite e pode ser utilizado em todo o rebanho, inclusive em vacas prenhes e bezerros”, completa o executivo. “Além disso, a solução não é tóxica para humanos, e nem para os animais, e, como se trata de um inimigo natural dos ectoparasitas, não há problemas com resistência ao seu método de controle, além de não necessitar do período de carência”, ressalta. “Combatendo o carrapato em todos os lugares onde ele se encontra, promovemos um controle estratégico, no qual todas as fases de vida do parasita são atingidas, resultando em um processo mais efetivo”, ressalta.

Combate da praga com solução natural

João Queiroz, criador de gado de corte e melhorista de Semental sul-africano na Fazenda Jaguaretê, no Rio Grande do Sul, lidava com o carrapato em seu rebanho todos os anos. O produtor tem seis mil cabeças para abate e, há 12 anos, saiu de São Paulo para criar bovino 100% europeu. “Decidi me mudar para o RS por conta do clima, que é onde o gado europeu se adapta melhor, e também pelo carrapato, que, teoricamente, deveria ter em menor quantidade. Mas não foi isso o que aconteceu”, conta o pecuarista, que perdia cerca de 40  bois por ano pelo parasita, além do custo de cerca de três aplicações de pesticidas por mês nos animais.

“Testamos várias formas de controle: pour on, sal para complementar, galinha-d'angola, rotação do pasto. Estes manejos ajudavam a diminuir a infestação, mas não resolviam”, conta. “Acabávamos perdendo parte da produção. Perdemos alguns animais por intoxicação, por utilizarmos muito veneno”, ressalta. Foi aí que o produtor conheceu as soluções da Decoy: “Fizemos o teste com o tratamento biológico em um lote, e tivemos resultados excelentes. Foi só olhar para o nosso rebanho e ver a diferença. Agora continuamos a aplicação em outros lotes. A diferença é drástica da saúde do meu gado hoje em dia. Nunca mais eu perdi nenhum boi”, conta. 

Para von Zuben, ao unir ciência e inovação ao poder da natureza, foi possível desenvolver uma tecnologia baseada em controle biológico. “Assim como o que foi feito na Fazenda Jaguaretê, buscamos alternativas mais sustentáveis e tecnológicas para manter a sanidade de uma criação, proporcionando bem-estar animal, qualidade de vida ao produtor e ao consumidor, e a preservação do meio ambiente”, ressalta. “É fundamental que utilizemos este conhecimento para realizar o melhor manejo do parasita. O sucesso no controle reduzirá os danos e garantirá melhor eficiência e maior produtividade dos animais”, conclui.

Fonte: Motim - Conteúdo Criativo

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