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Pomar vira lavoura de soja em Palmas

Crise da maçã fez a área da fruta cair 500 hectares nos últimos cinco anos, enquanto a soja ganhou 7 mil hectares. Município está perto de perder a liderança estadual


Publicado em: 06/07/2012 às 19:50hs

Pomar vira lavoura de soja em Palmas

Arilemes dos Santos trabalhou por cerca de sete anos nos pomares de maçã, em Palmas, Centro-Sul do estado. Hoje, sua principal ferramenta de trabalho, a motosserra, derruba as macieiras, que passaram a produzir lenha em vez de fruta. A mudança de atividade do trabalhador representa a realidade do setor agrícola na região. Com isso, a economia do município, que até 2005 era baseada no cultivo da fruta, hoje sobrevive graças às lavouras de soja e milho. Segundo especialistas, apesar de mais rentáveis, a produção de grãos gera menos postos de trabalho, criando situações como a de Arilemes. “Muita gente sobrevivia desse serviço, mas aos poucos tudo está acabando. Tem gente que simplesmente abandonou a maçã no pomar, nem colheu”, relata.

Os números referentes à área plantada com a fruta em Palmas comprovam o cenário de crise. Nos últimos cinco anos, os pomares encolheram 500 hectares e a produção do município recuou para o menor nível desde a safra 1995/96: 12,2 mil toneladas. A soja, por outro lado, ganhou 7 mil hectares no perío­do. Ou seja, além de abocanhar o terreno da maça, o grão mais rentável da agricultura roubou espaço de áreas de reflorestamento e pastagens. “A oleaginosa, juntamente com outras culturas, assumiram o papel de principal atividade econômica do município, antes exercido pela maçã”, confirma Josemar Bannach, agrônomo do Departamento de Economia Rural (Deral), ligado à Secretaria Estadual de Agricultura (Seab).

Após reduzir em 60% a área cultivada com a maçã, o agricultor Celso Sato conta que pretende diminuir ainda mais suas apostas na fruta.“Quem trabalha com cereais (grãos) está mais tranquilo, pois o risco de perdas é menor”, argumenta ele, que já teve 100 hectares de pomares. Ele arrendou parte de sua propriedade para um produtor de soja. “Aqui [em Horizonte], tivemos uma das maiores produções de maçã da região. Os pomares chegaram a ocupar 400 hectares, mas se hoje tiver 100 hectares é muito”, avalia ele.

Com a troca de culturas no campo, Palmas está perto de perder a liderança de produção no estado. O Paraná é hoje o terceiro maior produtor nacional de maçã, com cerca de 4% do volume total, mas ainda segue longe do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Em 2010, os dois estados produziram 1,2 milhão de toneladas, ou 95% da produção brasileira.

Para Rodrigo Keppe, diretor do departamento de agricultura de Palmas, o maior impacto dessa mudança na produção é sobre os postos de trabalho. “Essas novas atividades até podem ser rentáveis, mas exigem pouca mão de obra, geram pouco emprego”, afirma. Pierre Nicolas Pérès, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Maçã (ABPM), concorda. “A maçã gera até 3 empregos por hectare, entre vagas fixas e provisórias, algo que as grandes culturas não fazem”, salienta.

O risco de perdas climáticas é o principal fator que levou os produtores de Palmas a outra alternativa. A rentabilidade da fruta pode chegar a R$ 14 mil por hectare, considerando custo de R$ 12 mil e produtividade de 26 toneladas/ha. Menos suscetível ao clima e com mercado aquecido, a soja rende em média R$ 1,8 mil por hectare de lucro para o produtor.



Conjuntura

Crise começou com a inadimplência de produtores

Além da queda de preços e custos elevados, uma série de intempéries climáticas endividou os fruticultores de Palmas. Segundo Rodrigo Keppe, diretor do Departamento de Agricultura de Palmas, houve uma sequência de safras negativas nos últimos três anos, o que deixou muitos agricultores incapazes de honrarem os pagamentos. Com dívidas antigas e a impossibilidade de obter mais crédito para aplicar na lavoura, a maçã se tornou inviável. “Sem a possibilidade de lucro no curto ou no longo prazo, o produtor foi forçado a desistir da cultura”, diz.

Para Josemar Bannach, o que derrubou os pomares do município foi a falta de investimento dos produtores em relação à demanda do mercado. Ele lembra que os consumidores passaram a exigir uma fruta bonita, avermelhada, com formato uniforme, e barata - desejo inalcançado com as variedades utilizadas em Palmas. “Os produtores deveriam ter investido, erradicado os pomares antigos e plantado mudas novas, capazes de produzir esses frutos. Os consumidores comem com os olhos”, afirma. Bannach acredita que a produção da fruta está inviabilizada e a tendência é que as novas culturas ganhem espaço.

Santa Catarina salva indústria

Apesar da retração no setor, alguns agentes ainda tentam dar sobrevida à cultura da maçã em Palmas. A Cooperativa Agrícola dos Campos Palmenses (Cocamp) atende 23 cooperados e auxilia na separação e comercialização da fruta. Segundo Gilson Inácio de Brito, gerente comercial da empresa, além de gerar empregos, a produção do município supre o abastecimento de outros estados. “Geramos cerca de 100 vagas diretas, e o destino dos produtos é variado. Há frutas que vão para a região Norte e São Paulo, e parte vai para a indústria de suco”, explica.

Solução

Na tentantiva de satisfazer a mudança no perfil do consumidor de maçã, os produtores que estavam capitalizados extinguiram pomares antigos e plantaram novas espécies de macieiras, capazes de produzir o fruto desejado. É o caso dos Pomares Lovo, onde foram plantadas novas mudas em 2010 e 2011, em cerca de 11 hectares. Segundo Deoclecir Marin, gerente comercial da propriedade, os primeiros efeitos devem ser notados no curto prazo. “Já foi possível colher frutos nas mudas de 2010, e no ano que vem o resultado deve ser melhor”. O consumo médio por habitante vem crescendo desde 2008, e, em 2011, foi de 5,1 kg por ano, segundo a ABPM.

Fonte: Gazeta do Povo

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