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Controle biológico cresce no campo e ajuda na redução de custos da lavoura

Quem pensa que controle biológico é coisa só de pequeno produtor ou de agricultor alternativo, está enganado. O Globo Rural visitou fazendas de São Paulo para mostrar as novidades dessa técnica.

O Brasil tem 61 biofábricas produzindo inimigos naturais para uso no campo. É um mercado de milhões de dólares. O transporte e o armazenamento dos inimigos naturais exigem uma série de cuidados, já que esses aliados do agricultor são seres vivos.

Muitas batalhas são travadas no interior das lavouras. Insetos comem plantas, fungos atacam insetos, insetos devoram insetos, são disputas às vezes microscópicas... E naturais num ambiente em equilíbrio.

O problema é que na maioria dos cultivos, esse equilíbrio foi perdido pelo plantio de uma mesma cultura em áreas muito extensas e o uso de produtos químicos em excesso.

O agrônomo Alexandre Sene resume bem. “Nos tornamos o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Em 2010, o segundo maior usuário de plantas transgênicas. Passamos a usar as duas melhores tecnologias do planeta, mas ao mesmo tempo aumentamos em 600% os prejuízos, com ataque de pragas. Não precisava de uma reflexão muito profunda para perceber: alguma coisa está errada”.

Claro que o Brasil também gasta muito por ter uma das maiores áreas plantadas do mundo e num clima que favorece cultivos o ano todo.

Foi neste cenário que, em 2013, surgiu uma nova praga para desafiar os agricultores. A lagarta helicoverpa armígera devorou lavouras de soja, milho e algodão. Com a dificuldade de aprovação de produtos químicos o agricultor se abriu para uma nova alternativa.

“O que é que tinha disponível? Havia a utilização de vírus e a possibilidade de utilização de um parasitóide de ovos chamado trichograma. Então o agricultor começou a utilizar, e ele viu que dava bons resultados e passou a se interessar pela utilização do controle biológico”, explica o agrônomo e professor José Roberto Parra. Foi um marco importante, segundo Parra, um dos pioneiros no controle biológico.

Na Escola Superior de Agricultura Luíz de Queirós, em Piracicaba, São Paulo, o professor coordena os laboratórios onde são estudados os organismos benéficos para a agricultura e aqueles considerados um problema.

Recriando a batalha travada na natureza, nascem novas tecnologias para o controle biológico. É o caso do percevejo marrom da soja, que recebe uma dieta especial.

“Esses percevejos colocam ovos. Esses ovos serão parasitados por uma pequena vespa, chamada telenomus podisi que, ao introduzir ovos no interior desses ovos, irão destruí-lo impedindo que haja progressão de praga nas futuras gerações”, comenta.

Outra tecnologia que saiu do laboratório de Piracicaba é a da produção de trichogramma, um inseto, inimigo natural da broca da cana. No laboratório ele se desenvolve dentro do ovo de uma traça, que se mostrou mais simples de ser criada do que a broca.

“A gente cola o ovo da traça em uma cartela, esteriliza os ovos com luz ultravioleta e oferece os ovos para o trichograma. As fêmeas vão parasitar os ovos, dez dias após o parasitismo, o trichograma emerge novamente. O domínio da criação dos ovos dessa traça é que fizeram com que o trichograma fosse tão usado na agricultura”, explica Aloísio Coelho Jr., biólogo.

Do laboratório para o campo. Em um canavial, em Barra Bonita, São Paulo, é possível ver o estrago causado pela broca. Na fase de lagarta, ela abre galerias na cana, permitindo a entrada de fungos que provocam, por exemplo, a podridão vermelha.

“Cada 1% de infestação de broca, nós perdemos 1,25% de toneladas de cana. Em termos de açúcar, nós vamos perder, cada 1%, 0,38 quilos de açúcar e 0,27 % de etanol. No início tinha em torno de 13% de infestação. Esse ano fechamos 0,66%”, explica Sebastião Ribeiro, técnico em agropecuária.

Enquanto o trichogramma ataca os ovos da broca, a vespa cotésia, age sobre a fase de lagarta. Uma das maiores produtoras de cana do país abriga em suas instalações uma fábrica só para a produção de cotésias.

O processo começa com a retirada de papéis de dentro de um tubo cheio de mariposas, o inseto adulto da broca. Os papéis ficam lotados de ovos. Depois de um tempo as larvinhas começam a nascer. Pedaços do papel são colocados num outro frasco com alimento. De onde saem 378 mil brocas por semana. Depois de uns 19 dias, elas atingem cerca de 4 centímetros.

Em uma sala acontece o primeiro contato da lagarta com a vespa, que é a sua inimiga natural. As lagartas já crescidas são retiradas dos frascos e oferecem uma a uma, para uma vespinha fêmea, que vai imediatamente picar essa lagarta e depositar dentro dela, em torno de 60 ovos.

O processo é todo manual. Cada uma das funcionárias tem a meta de inocular quatro mil e seiscentas lagartas por dia. No canavial, o funcionário percorre a lavoura e distribui os potinhos com as vespas.

“Esses ovos se alimentam de todo o sangue da lagarta. Dentro de 11 a 15 dias elas saem do corpo da lagarta em forma de larva, se juntam formando um casulo. Cada aglomerado de ovinhos vai dar origem a 60 novas vespinhas”, explica Deise Gallo, bióloga e líder de do desenvolvimento técnico do laboratório.

“O controle biológico na cana é um caso de sucesso mundial há muitos anos, desde 70, 72 e vem evoluindo ao longo do tempo. Quando eu falo em controle biológico eu tenho que ter um controle muito grande do canavial. Tenho que saber o clima: temperatura e umidade; preciso conhecer o ciclo da praga e nível de infestação na lavoura; a biologia do inimigo natural, no caso a cotésia; e o estágio de desenvolvimento da lavoura. Quando junta esses quatro pilares me dá o último que é o momento correto da aplicação”, avalia Rodrigo Amoroso, agrônomo.

Um avanço no controle da broca é esperado com a distribuição das cotésias através de uma cápsula de papel, lançada por drone. A agrônoma Gabriela Silva é dona da empresa que desenvolveu a cápsula.

“Ela é redonda, tem um centro de gravidade na parte de baixo e orifícios de saída dos inimigos naturais na parte superior. Dentro tem o que a gente chama de massa cotonoza, que parecem algodões e dentro deles estão as pulpas das vespas que daqui a algum tempo vão emergir e elas vão sair por esses orifícios e vão atrás das brocas para fazer todo o processo de parasitismo”, descreve Gabriela Silva, bióloga e agrônoma.

Gabriela diz que a cápsula protege de intempéries do clima e, como tem uma camada de repelente, dos predadores. “Em três meses não se encontra mais cápsulas no ambiente”, afirma.

Os responsáveis pelo drone viajam o Brasil todo para prestar o serviço com o equipamento, que não chamam de drone. “Eu chamo esse equipamento de aeronave agrícola que voa sozinha. A gente tenta não desenvolver drones, que tem esse aspecto de brinquedo, instrumento para fotografia e sim uma máquina agrícola, que aguente as dificuldades do campo”, comenta Enio Freitas, engenheiro elétrico.

A ideia da empresa veio do Eduardo da Costa Goerl, piloto de aviões. “Em 2008 eu dava instrução para a aviação agrícola e aí eu tive um acidente. Pegou fogo logo depois da decolagem. E esse acidente motivou que anos depois a criação da empresa para evitar que os pilotos entrem naquela área de risco, onde os acidentes acontecem”, conta.

Segurança para os funcionários, eficiência e economia para o produtor. “Com o drone eu consigo intensificar a liberação da cotésia no melhor momento possível e consigo maximizar o controle da broca no canavial. O controle biológico é 30, 40% mais barato que o químico e o retorno é muito eficiente”, diz Rodrigo Amoroso, agrônomo.

Mercado de milhões de dólares

As lavouras brasileiras se estendem por mais de 70 milhões de hectares, um mercado enorme e desafiador.

“Nós somos líderes mundiais em agricultura tropical, mas temos que desenvolver, e esse é o nosso desafio, um modelo de controle biológico pra regiões tropicais”, declara o agrônomo e professor José Roberto Parra.

Segundo o Ministério da Agricultura, o Brasil tem cerca de 170 produtos biológicos registrados. Em 2010 eram apenas 21. O interesse dos agricultores está crescendo, mas ainda há muito o que avançar. De todo o mercado de defensivos biológicos, a América Latina representa 13%. A Europa detém a maior parcela: 30%.

Uma das grandes empresas de controle biológico do mundo é holandesa e, há alguns meses, cresceu mais um pouco, com a compra de uma empresa brasileira. Não para acabar com a concorrência, mas para aumentar sua produção.

O Globo Rural mostrou a fábrica nacional de inimigos naturais em 2012. Ela surgiu dentro da Esalq como uma startup, uma pequena empresa com grande potencial de expansão.

“Já entrei na faculdade de agronomia querendo o controle biológico. Era mais poético naquela época. Eu não imaginava ver isso vivo ainda. Imaginava que seria para gerações seguintes”, conta Alexandre de Sene, agrônomo e um dos fundadores da startup.

Atualmente como consultor da empresa, ele conta que ela cresceu 600%. “A demanda é muito alta, especialmente para os parasitóides envolvidos com soja. É um mercado perto de 5 bilhões de dólares no mercado mundial. Está caminhando para isso. Hoje deve estar em três bilhões e a América Latina está em 500 milhões, indo pra 800 milhões nos próximos anos”, avalia Sene.

A empresa produz macroorganismos, como insetos, e microorganismos, como os fungos. Só em uma unidade, são usadas 50 toneladas de arroz por dia, para a produção de fungos.

O arroz já com o fungo é colocado em bandejas e trazido para uma das câmaras. São 18 câmaras com temperatura e umidade controladas. São nelas que o fungo vai se desenvolver. Isso pode levar entre oito a 20 dias, dependendo do microorganismo. Como lá dentro existem equipamentos e processos sigilosos, o Globo Rural não pode mostrar.

O arroz sai das câmaras cheio de fungos, que viram centenas de toneladas de produtos para aplicação no campo. Colocados em galões parecidos com os de agrotóxicos, eles exibem o selo do IBD - o Instituto de Biodinâmica, comprovando que se trata de produto biológico.

“Só de ingredientes ativo, produzimos em média entre 30, 35 toneladas de fungo puro por ano. O faturamento é em torno de fatura em torno de 70 milhões de reais por ano. A gente tem saltos de faturamento assustadores, da faixa de dois dígitos, exatamente pelo excesso de demanda que vem do campo”, explica Lucianao Zappelini, biólogo.

A aposta da empresa, agora, é um fungo acinzentado, a isaria fumosorosea, uma novidade no combate ao psilídeo, o inseto transmissor do amarelão ou o greening dos citros.

Nos pomares de laranja de uma propriedade, em Pirassununga, São Paulo, os primeiros sinais da doença começaram em 2004. Segundo o Fundecitrus, o greening é a pior doença que a citricultura já enfrentou. No ano passado, 17% das plantas os pomares de São Paulo e Minas apresentavam sintomas.

“Existe um inseto vetor empregado na disseminação da bactéria. Esse inseto se alimenta em uma planta doente, ele adquire a bactéria e pode disseminar para outros pomares. E quando ele faz a sua alimentação numa árvore sadia ele pode inocular a bactéria naquela planta”, explica Bruno Daniel, agrônomo/Fundecitrus.

Os ramos ficam amarelados, perdem folhas. Os frutos caem antes da hora e as sementes ficam escuras e menores do que sementes sadias. Uma vez que a bactéria se instalou na planta, não existe mais cura.

Para evitar que o greeening se espalhe por todo o pomar, a planta doente tem que ser cortada. Uma nova planta vai demorar uns quatro anos para produzir o mesmo que as outras.

Outra medida é o uso de armadilhas, para monitoramento do inseto transmissor.

“Ela é um atrativo visual que possui uma cola. Semanalmente a gente faz a inspeção e contagem de quantos psilídios têm na armadilha. Com um único psilídio, a gente já começa com o controle”, Brayan Palhares, agricultor.

Palhares, que herdou o cultivo de laranjas do pai, sempre usou agrotóxicos, mas estava ficando sem opção para variar o produto. “Se usar sempre o mesmo produto, pode dar resistência ao inseto. A gente já viu isso em outras culturas que a gente planta e estamos tentando prevenir no caso dos citros”, diz.

Hoje, em áreas vizinhas aos pomares, já vem sendo usado um outro inseto inimigo natural do psilídeo: a tamarixia radiata. A tamarixia coloca o ovo no corpo da ninfa do psilídeo. O inseto inimigo se desenvolve lá dentro, matando a ninfa do transmissor do greeening.

A tecnologia foi desenvolvida pela Esalq, mas não pode ser usada nos pomares de citrus porque, com as aplicações de inseticidas, o inimigo natural também morreria.

É aí que entra a novidade do controle com o fungo isária, lançado este ano, os primeiros testes foram feitos na propriedade do Bryan.

“Ele vem sendo trabalhado há oito anos quase. A gente segue o caminho de um defensivo com todos os laudos de eficiência, testes a campo... A mesma metodologia que o Ministério prega para defensivo químico, a gente prega para o biológico. A gente começou o processo de colocar o produto a campo, onde a gente instalava alguns voais no pomar de laranja com o psilídio confinado e então aplicava-se o produto e depois voltava a acampo para avaliar a eficiência de mortalidade. Um dia após a aplicação a gente pode considerar na média, entre 60, 65% de mortalidade”, esclarece José Leonardo Santos, agrônomo.

O preparo para aplicação é o mesmo de outros produtos. O funcionário coloca o fungo diluído no pulverizador e aplica o pomar. O produtor ficou surpreso com o resultado. “Logo de início ele já deu um controle bom e nos primeiros 15 dias, praticamente zerou os insetos”, conta Bryan.

Na lavoura de café do agricultor Jean Faleiros, em Cristais Paulista, na divisa com Minas Gerais, o problema era a broca.

Faleiros avalia as plantas com o agrônomo Rodrigo Rodrigues. “O inseto adulto oviposita dentro dos grãos de café, as larvinhas vão nascendo dentro do grão e vão consumindo todo o conteúdo interno do grão de café. Hoje é considerada uma das principais pragas da cafeicultura nacional”, explica.

Até pouco tempo, para controlar pragas e doenças só se usava produto químico nos 900 hectares de café.

“Até 2011 eu usava produto para a broca que era o endosulfam, que me dava controle de 100%. Eu nunca tive problema com broca. De 2011 pra cá ele foi proibido. Aí eu vinha buscando outro produto para substituir. Eu comecei a usar um produto, outro, outro, isso tava causando um desequilíbrio muito forte na lavoura com ácaro, bicho mineiro e eu tava buscando alternativa”, conta Faleiros.

A alternativa veio na forma do controle biológico, com um fungo chamado beauveria. Mas, não pense que ele aceitou logo a mudança.

“A princípio eu fiquei desconfiado, pensei que um fungo ia matar a broca. Até acreditei que poderia funcionar, mas numa área tão grande... Tanto que no primeiro ano abri só 10% da área para ver o benefício do produto”, conta Faleiros.

O primeiro teste não foi muito eficiente, porque a infestação já estava grande, mas com a ajuda dos técnicos ele insistiu. Hoje, o monitoramento através de armadilhas mostra como está a infestação e se há a necessidade de aplicar o fungo. Hoje 100% da área recebe controle biológico para a broca. O que é aplicado nas plantas é o esporo da bovéria, a sementinha do fungo.

“A partir do momento que esse esporo entra em contato com o inseto, ele promove um processo de desenvolvimento da bovéria dentro do inseto. Em torno de sete a 10 dias a broca já tá morta. Hoje em média na safra 17/18, a gente tem encontrado em torno de 70% de brocas colonizadas pela bovéria bassiana”, explica Rodrigo Rodrigues, agrônomo.

A eficiência do controle conseguiu mudar o pensamento até do cafeicultor tradicional. “Hoje qualquer produto do mercado está ficando em torno de 300 reais por hectare, uma aplicação. A bovéria hoje é 60 reais, então é um quinto, com o mesmo resultado, mas na minha opinião é um resultado muito melhor porque é produto natural e deixa sua planta equilibrada. Passar só pro biológico é o sonho, cada vez mais imitar nossa floresta”, avalia o agricultor Faleiros.

O sonho de recuperar o equilíbrio da natureza. É difícil, em cultivos tão extensivos. Mas, com monitoramento constante e tratamentos preventivos pelo menos é possível reduzir a quantidade de produtos químicos.

“O controle químico dificilmente vai ser erradicado. O que existe é fazer o manejo integrado de pragas. O produto químico pode ser usado de forma mais racional”, comenta o agrônomo e professor José Roberto Parra.

“Quando você tem uma praga que não dá para ser controlada de forma biológica, por falta de ciência, de pesquisa, daí entraria com o químico. O Brasil está entrando nessa fase”, avalia Alexandre Sene, engenheiro agrônomo.

“A gente vê vida trabalhando para a vida e a gente regozija desse trabalho da natureza, da gente poder estar manipulando a natureza a favor de todos. Nós e dela própria”, diz Rodrigo Rodrigues, agrônomo.

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Data de Publicação: 04/07/2018 às 15:20hs
Fonte: Globo Rural
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