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Búfalos: criadores do Amapá apostam em expansão do mercado

Pastagens naturais que se estendem por 1,6 milhão de hectares. Infraestrutura de acesso aos mercados nacional e internacional. Experiência de quase seis décadas de adaptação às condições climáticas da Amazônia.

Detentor do segundo maior rebanho de búfalos do país, com 280 mil cabeças, o Amapá há tempos reúne condições para ocupar um lugar de destaque nesse nicho da pecuária nacional. O potencial, porém, nunca se tornou realidade.

O motivo tem nome e sobrenome: Aphtae epizooticae, a febre aftosa, doença viral que ataca animais de casco bifurcado e, no caminho, fecha portas de mercados mundo afora.

Apesar de o último caso da doença ter sido registrado em 1999, desde então, o Estado nunca alcançou condições sanitárias para sair da lista de áreas classificadas como sendo de “alto risco” pelo Ministério da Agricultura.

“Faltavam união entre os produtores e ação do poder público”, opina o produtor Jesus Pontes, cuja família chegou ao Estado há mais 60 anos e foi uma das pioneiras na criação de bubalinos. “O resultado é que sempre convivemos com restrições.”

Há menos de um ano, esse cenário começou a mudar rapidamente - e para melhor. O primeiro passo foi a abertura da Associação dos Criadores do Amapá (Acriap), que hoje tem 2.200 propriedades cadastradas.

“Reunimos todo mundo para dizer que a aftosa era um problema nosso, não do Estado. Nós é que não conseguíamos acessar o mercado”, relata Jesus, que se tornou o primeiro presidente da entidade.

A força concentrada logo deu resultados. Em reunião com o governo, os produtores defenderam a necessidade de uma troca no comando da Agência de Defesa e Inspeção Agropecuária (Diagro), onde identificavam um gargalo administrativo. “Havia um problema de gestão muito grande. As informações sobre ações de vacinação não eram coletadas ou informadas no prazo correto. Alguns escritórios sequer produziam os levantamentos. E os anos iam passando, sem nada mudar”, afirma.

O novo presidente da agência, o médico-veterinário e servidor de carreira José Renato Ribeiro, ampliou as parcerias com as entidades do setor privado, com foco nas falhas que, nos anos anteriores, impediam a mudança de status da pecuária local. “Remodelamos o funcionamento da Diagro em todo o Estado, com maior controle sobre o tráfego de animais”, diz.

No ano passado, o Amapá fechou a vacinação com o melhor índice de cobertura de sua história: 95,59% (em 2015, a campanha atingiu 87,6% do rebanho). “Fizemos coletas de sangue em várias fazendas, investigamos todas as doenças vesiculares e os resultados foram negativos, ou seja, não temos a circulação do vírus da aftosa no Amapá”, diz José Renato.

O QUE O ESTADO PRECISA É DA TRANSFORMAÇÃO DO PASTO AO PRATO, MUDANDO SUA CADEIA PRODUTIVA

A primeira conquista veio em maio. Por meio de uma instrução normativa, o Ministério da Agricultura reduziu a classificação de risco para a doença no Estado de alto para médio. A mudança estabeleceu um patamar inédito para os produtores locais, que pela primeira vez estão oficialmente autorizados a alcançar o mercado nacional – desde que os animais sejam submetidos a uma quarentena de 15 dias antes de deixarem as divisas locais.

A expectativa de todos, porém, está no que vai ocorrer até o mês de agosto, quando está prevista a resposta, também pelo Ministério da Agricultura, a um pedido oficial de reconhecimento do Estado como área livre de aftosa com vacinação. “Apesar das dificuldades, alcançamos as adequações no Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa (Pnefa), por meio do sistema de auditorias, de supervisões nas unidades veterinárias locais (UVL) e inquéritos soroepidemiológicos, tendo um papel preponderante, orientando as adequações e melhorias necessárias à evolução da condição sanitária”, diz trecho do pedido.

O presidente da Diagro é otimista em relação à possibilidade de uma nova qualificação. “Hoje, podemos dizer que atendemos a todas as exigências, inclusive para a certificação internacional, que iremos buscar ainda este ano”, avalia.

VIDA NOVA

Se concretizada, a reclassificação abre muitas possibilidades para a pecuária amapaense, que tinha seu crescimento limitado pelo tamanho do mercado local. “Não adiantava aumentar o rebanho, porque não haveria para quem vender e o preço iria lá para baixo”, relata Jesus Pontes, cuja família cria 8 mil cabeças de búfalos em quatro áreas do Estado.

Segundo ele, uma das alternativas será enviar animais para o abate em frigoríficos de outros Estados. “Esperamos um incremento de 15% a 20% no preço, pois vamos ter concorrência agora. Vamos poder vender para um frigorífico no Pará, por exemplo”, diz.

O Porto de Santana, que está preparado para se tornar um grande polo exportador de grãos do Centro-Oeste, também poderá ser decisivo nesse novo mercado. “A intenção é utilizar contêineres sanitários, refrigerados, para fazer exportação de carnes específicas”, diz o presidente da Diagro.

No Brasil, a carne de búfalo encontra um mercado crescente principalmente nos Estados de São Paulo e Paraná. Por se tratar de um produto com baixo teor de gordura, encontra cada vez mais espaço entre os frequentadores de academias. “É um corte diferenciado, uma iguaria”, define.

De olho na abertura do mercado, a Soreidom, uma trading que atua principalmente com trigo e milho, já manifestou interesse em transportar a futura carga em sua frota de navios para até 20.000 toneladas. O abastecimento de países vizinhos, como a Guiana Francesa, é uma das possibilidades.

O beneficiamento do couro também entra nessa conta. Atualmente, o produto produzido no Estado é vendido para uma fábrica do Rio Grande do Sul, onde é curtido, tingido e vendido à Europa para ser utilizado na indústria de calçados e acessórios.

O florescimento da pecuária local obviamente não passa apenas pela certificação como área livre com vacinação. O presidente da Diagro lembra que o consumidor externo exige muito mais do que a erradicação da aftosa.

“O Amapá tem um rebanho bubalino grande e áreas com potencial de expansão. O que o estudo precisa é de uma transformação do pasto ao prato. Mudar toda a cadeia produtiva.”

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Data de Publicação: 24/08/2017 às 18:50hs
Fonte: Globo Rural
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